04/03/12

Entre a falta da perfeição


Inspirado em Cisne Negro

O desassossego perturbando de maneira crônica fez retumbar o desconhecido. Tudo do qual não sei parecia assustar e instigar, provocar de maneira sádica, levantando-me da cama e me fazendo andar de um lado ao outro na escuridão das três da manhã. O encanto pelo desconhecido movia-me, muito mais que o encanto pela contemplação. Maravilhoso adorar o que conheço intimamente, mas não me completa, não me maximiza, não me altera.

Buscando a perfeição, precisando assim sanar toda e qualquer falta, respondendo o que não conheço. Seria por imposição, ambição, ganância? Sem respostas, apenas doente por ser a melhor, doente por ser quimérico, luto todos os dias pela excelência, odiando todo e qualquer desvio que meu corpo ou minha alma fazem, odiando muito mais a mim a cada momento.

Quanto mais penso, mais vejo a falta, mais sinto o não entender. Seria a perfeição, contentar-se? Assim, eu teria que ignorar as faltas. Não conheço nem a mim, e assim para tentar enquadrar-me na perfeição, a única saída seria aceitar que em toda existência há respostas e moldes para tudo. Mas, em tudo sempre há falta. Para seguir, eu preciso da falta, da falta que o ontem me faz, que o hoje me move, que o amanhã espera.

Sou chamada a fazer regras a partir do nada, a inventar algo dentro do vazio. Mas não resolvo nada, não respondo nada, e a ausência tinge-me de novo. Nunca darei conta da minha vida? Assim vou caminhando em frente? Mas a perfeição? Mas e ser a melhor? Mas e o sufoco, o sofrimento? O verdadeiro viver seria a idealização disso. Enxergar que não vou, jamais, chegar perto da utópica perfeição, pois seria calar ao mundo e ao que o move. A falta, quem diria, é a perfeição. Não ser, não possuir, lutar, construir, é a maior superioridade que existe, é o motor da existência. O vínculo que une as pessoas, que as almas compreendem é buscar descobrir algo além do que conheço, é ter mais desse encantamento sabendo que
ele nunca acabará. Procurar em cada qual algo a mais, redescobrindo-o a cada segundo. Calar, ser perfeito diante do mundo, seria não ser completo. 
Então, que eu sempre falte, para assim viver dentro da majestade da busca pelo mais.


às Domingo, Março 04, 2012

1 comentários:

Leticia Bizzi disse...

Belo texto! Você escreve muito bem, gostei. =)

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